domingo, julho 13, 2008

ODE AO GATO






por: Artur da Távola

Nada é mais incômodo para a arrogância humana que o silencioso bastar-se dos gatos. O só pedir a quem amam. O só amar a quem os merece. O homem quer o bicho espojado, submisso, cheio de súplica, temor, reverência, obediência. O gato não satisfaz as necessidades doentias de amor. Só as saudáveis.

Já viu gato amestrado, de chapeuzinho ridículo, obedecendo às ordens de um pilantra que vive às custas dele? Não! Até o bondoso elefante veste saiote e dança valsa no circo. O leal cachorro no fundo compreende as agruras do dono e faz a gentileza de ganhar a vida por ele. O leão e o tigre se amesquinham na jaula. Gato não. Só aceita relação de independência e afeto. E como não cede ao homem, mesmo quando dele dependente, é chamado de traiçoeiro, egoísta, safado, espertalhão ou falso.
“Falso”, porque não aceita a nossa falsidade e só admite afeto com troca e respeito pela individualidade. O gato não gosta de alguém porque precisa gostar para se sentir melhor. Ele gosta pelo amor que lhe é próprio, que é dele e o dá se quiser.
O gato devolve ao homem a exata medida da relação que dele parte. Sábio, é esperto. O gato é zen. O gato é Tao. Conhece o segredo da não-ação que não é inação. Nada pede a quem não o quer. Exigente com quem o ama, mas só depois de muito se certificar. Não pede amor, mas se lhe dá, então o exige.

O gato não pede amor. Nem dele depende. Mas, quando o sente, é capaz de amar muito. Discretamente, porém, sem derramar-se. O gato é um italiano educado na Inglaterra. Sente como um italiano, mas se comporta como um lorde inglês.

Quem não se relaciona bem com o próprio inconsciente não transa o gato. Ele aparece, então, como ameaça, porque representa a relação sempre precária do homem com o (próprio) mistério. O gato não se relaciona com a aparência do homem. Vê além, por dentro e avesso. Relaciona-se com a essência.

Se o gesto de carinho é medroso ou substitui inaceitáveis (mas existentes) impulsos secretos de agressão, o gato sabe. E se defende ao afago. A relação dele é com o que está oculto, guardado e nem nós queremos, sabemos ou podemos ver. Por isso, quando esboça um gesto de entrega, de subida no colo ou manifestação de afeto, é muito verdadeiro, impulso que não pode ser desdenhado. É um gesto de confiança que honra quem o recebe; significa um julgamento.

O homem não sabe ver o gato, mas o gato sabe ver o homem. Se há desarmonia real ou latente, o gato sente. Se há solidão, ele sabe e atenua como pode (enfrenta a própria solidão de maneira muito mais valente que nós).

Se há pessoas agressivas em torno ou carregadas de maus fluidos, eles se afastam. Nada dizem, não reclamam. Afastam-se. Quem não os sabe “ler” pensa que “eles não estão ali”, “saíram” ou “sei lá onde o gato se meteu”. Não é isso! É preciso compreender porque o gato não está ali. Presente ou ausente, ensina e manifesta algo. Perto ou longe, olhando ou fingindo não ver, está comunicando códigos que nem sempre (ou quase nunca) sabemos traduzir.

O gato vê mais, vê dentro e além de nós. Relaciona-se com fluidos, auras, fantasmas amigos e opressores. O gato é médium, bruxo, alquimista e parapsicólogo. É uma chance de meditação permanente ao nosso lado, a ensinar paciência, atenção, silêncio e mistério.

Monge, sim, refinado, silencioso, meditativo e sábio, a nos devolver as perguntas medrosas esperando que encontremos o caminho na sua busca, em vez de o querer preparado, já conhecido e trilhado. O gato sempre responde com uma nova questão, remetendo-nos à pesquisa permanente do real, à busca incessante, à certeza de que cada segundo contém a possibilidade de criatividade e novas inter-relações, infinitas, entre as coisas.

O gato é uma lição diária de afeto verdadeiro e fiel. Suas manifestações são íntimas e profundas. Exigem recolhimento, entrega, atenção. Desatentos não agradam os gatos. Bulhosos os irritam. Tudo o que precisa de promoção ou explicação os assusta. Ingratos os desgostam. Falastrões os entediam. O gato não quer explicação, quer afirmação. Vive do verdadeiro e não se ilude com aparências. Ninguém em toda a natureza, aprendeu a bastar-se (até na higiene) a si mesmo como o gato.
Lição de sono e de musculação, o gato nos ensina todas as posições de respiração e yoga. Ensina a dormir com entrega total e diluição no Cosmos. Ensina a espreguiçar-se com a massagem mais completa em todos os músculos, preparando-os para a ação imediata. Se os preparadores físicos aprendessem o aquecimento do gato, os jogadores reservas não levariam tanto tempo (quase quinze minutos) se aquecendo para entrar em campo. O gato sai do sono para o máximo de ação, tensão e elasticidade num segundo. Conhece o desempenho preciso e milimétrico de cada parte do seu corpo, ao qual ama e preserva como a um templo.

Lições de saúde sexual e sensualidade. Lição de envolvimento amoroso com dedicação integral de vários dias. Lição de organização familiar e de definição de espaço próprio e território pessoal. Lição de anatomia, equilíbrio, desempenho muscular. Lição de salto. Lição de silêncio. Lição de descanso. Lição de introversão. Lição de contato com o mistério, o escuro e a sombra. Lição de religiosidade sem ícones.

Lição de alimentação e requinte. Lição de bom gesto e senso de oportunidade. Lição de vida e elegância, a mais completa, diária, silenciosa, educada, sem cobranças, sem veemências ou exageros e incontinências.

O gato é um monge portátil sempre à disposição de quem o saiba perceber.

domingo, julho 06, 2008

Opinião...

fazendo a costumeira leitura de meus e-mails, não pude deixar de prestar atenção na seguinte mensagem:
NOSSA ESCOLA

Vinhemos à Terra estudar ,
Reduzir nosso orgulho
Para a vida melhorar

O ser humano é responsável
Pelas portas que fechar
O nó que construir, ele tem de desatar

Ninguém vem do acaso,
Uns dos outros somos instrumentos
De progresso e elevação

O aborto é mazela
Interrompe a porta de entrada
A escola fica fechada


assim fico pensando - e decidindo se coloco em discussão nacional, ou apenas se escrevo para minha agendinha... ou se ignoro e deixo de me importar com nossa ABSURDA espécie...

tem muita gente no mundo, de modo a não sabermos administrar.
nem todos tem condições (sejam financeiras, estruturais ou emocionais) para criar crianças - irresponsabilidade é um grande problema... o que nos leva a não poder levar muito a sério a parte das medidas contraceptivas ao se lidar com IRRESPONSABILIDADE, seja ela adolescente ou não.

Paremos um pouco para pensar no tanto que nossas vidas estariam melhores se nossas ações fossem mais conscientes - falo em termos noção de suas conseqüências -, isso geralmente acontece quando elas já estão a se apresentar a nós... Não creio que seja tão diferente com a gravidez. Principalmente tratando-se de uma geração pós - HIV (ou em que a imunodeficincia já não se apresenta de forma tão grave quanto a uns vinte anos atrás).

Parando pra pensar - acho que se uma pessoa não tem condições de ter uma criança, é bom que ela não a tenha. isso ajudaria a amenizar nossa superpopulação sedenta de recursos naturais, assim como diminuiria consideravelmente o lucro de psiquiatras, psicólogos e fast-foods... pois teríamos menos pessoas problemáticas e paranóicas no mundo - algumas superam.. outras não.

Mas realmente acho que a maior questão aqui é: por que diabos é tão hediondo algo que se faz a todo instante? abortamos, ou melhor nossa sociedade - seja por total incapacidade ou por puro sadismo... é algo ainda a se examinar - transforma jovens crianças felizes e capazes em mortos-vivos, sem direitos ou condições de vida. Não seriam melhor que não tivessem nascido, a ter que passar uma vida a puxar carroças, catando alimentos do lixo alheio, sendo ignorados, excluídos, morrendo aos poucos - seja sob o céu cinzento e poluído das grandes metrópoles ou em latifúndios alheios com secas e enchentes...

acho que essa idéia de valor da vida é tão relativa... depende de que vida: a sua ou a de outra pessoa? E em que tempo?

Na maior parte da nossa história, matar pessoas é bom.Para isso inventamos as guerras. assim ganhamos, recursos, títulos, prêmios e tecnologia enquanto nos matamos poelas mais absurdas razões...

Assim eu pergunto, o que há de tão hediondo se alguém que não se acha capaz de ter uma criança - e que prova isso tendo irresponsabilidade o suficiente para, mesmo não querendo um filho, engravidar - impedir que essa criança indesejada nasça, consuma recursos naturais, não se encontre direito em nossa sociedade caótica e morra... de todas as formas que podemos matar alguém - inclusive pelo total e completo descaso.

Tem aqui um cara que fala muito bem do assunto, no meu entendimento. Assistam, vale a pena^^



quinta-feira, julho 03, 2008




coisas estranhas da vida...
andei repensando, e pensando, e dispensando...
e vi meu coração assim...